Agendar

“Eu sei o que preciso fazer, mas não consigo”: entendendo o ciclo da depressão

3 min de leitura

“Eu sei que preciso sair de casa.”

“Eu sei que me faria bem voltar a fazer algumas coisas.”

“Eu só não consigo.”

Durante um quadro depressivo, até atividades que antes pareciam simples podem exigir um esforço enorme.

Isso não significa necessariamente falta de interesse, preguiça ou falta de força de vontade.

Por que a depressão pode diminuir nossa vontade de fazer as coisas?

A depressão pode estar associada à redução de energia, motivação e capacidade de experimentar prazer.

Com isso, atividades como tomar banho, preparar uma refeição, responder uma mensagem, trabalhar, encontrar alguém ou praticar uma atividade anteriormente prazerosa podem se tornar muito mais difíceis.

A pessoa começa a reduzir suas atividades.

O problema é que essa redução também pode diminuir o contato com experiências de prazer, conexão, realização e senso de competência.

Podemos observar um ciclo:

Humor deprimido → menos atividades → menos experiências de prazer e realização → maior isolamento → piora do humor → ainda menos atividades

Esse é um dos processos que podem contribuir para a manutenção da depressão.

Preciso esperar a motivação aparecer?

Nem sempre.

É comum pensarmos:

“Quando eu estiver melhor, volto a fazer as coisas.”

Mas esperar sentir vontade para somente depois agir pode contribuir para a manutenção do ciclo.

Em alguns momentos, o caminho pode acontecer na direção contrária:

Ação → contato com novas experiências → possibilidade de mudanças no humor e na motivação

Isso não significa ignorar o sofrimento ou exigir produtividade.

Significa construir movimentos possíveis dentro da realidade atual da pessoa.

O que é ativação comportamental?

A ativação comportamental é uma intervenção psicológica com evidências para o tratamento da depressão.

Uma parte importante do trabalho consiste em compreender a relação entre humor, contexto e comportamento e aumentar gradualmente o contato com atividades significativas.

Não se trata simplesmente de dizer:

“Levante e faça alguma coisa.”

A intervenção envolve identificar padrões, compreender o que está contribuindo para a redução das atividades e planejar ações de maneira gradual e individualizada.

Algumas ações podem parecer pequenas:

Tomar banho;
Preparar uma refeição;
Caminhar alguns minutos;
Responder uma mensagem;
Retomar uma atividade;
Encontrar alguém importante.

O tamanho da ação precisa ser compatível com o momento da pessoa.

Pequeno não significa insignificante.

Fazer mais significa ser mais produtivo?

Não.

Ativação comportamental não é transformar tratamento de depressão em uma lista interminável de tarefas.

O objetivo não é ocupar todos os espaços da agenda.

Também não é medir melhora pela produtividade.

O foco está em compreender quais comportamentos estão associados à manutenção do sofrimento e ampliar gradualmente o contato com experiências importantes e significativas.

Às vezes, isso envolve fazer algo.

Em outros momentos, pode envolver descanso, autocuidado, conexão social ou reconstrução de uma rotina básica.

A pergunta deixa de ser apenas:

“Estou com vontade?”

e pode se transformar em:

“Qual é o menor passo possível que posso realizar hoje em direção ao que é importante para mim?”


Referências

CUIJPERS, P.; KARYOTAKI, E.; HARRER, M.; STIKKELBROEK, Y. Individual behavioral activation in the treatment of depression: a meta-analysis. Psychotherapy Research, v. 33, n. 7, p. 886–897, 2023.
NATIONAL INSTITUTE FOR HEALTH AND CARE EXCELLENCE. Depression in adults: treatment and management. NICE Guideline NG222. London: NICE, 2022.

Este conteúdo possui caráter psicoeducativo e não substitui avaliação, diagnóstico ou acompanhamento individualizado por profissionais de saúde.

Precisa de apoio profissional?

Esse conteúdo fez sentido para você?

Se sente que é hora de olhar para a sua saúde emocional, vamos conversar. O primeiro passo é entrar em contato.

Agendar consulta